segunda-feira, 25 de maio de 2015
1984
Passaram-se três dias desde a apresentação que fiz no Inferno Club. Não foi ruim, nem bom, creio eu... Talvez eu desse uns 4,5 de nota, quase na média 5.
Talvez eu seja muito exigente comigo mesma, ou só esteja tomando consciência da realidade agora.
A passagem de som estava marcada para as 21h. Eu cheguei pontualmente e assisti a passagem de som da banda que tocaria depois de mim. Era uma boa banda, a vocalista tinha um aparelho que muda a voz no microfone, coloca efeitos e ajuda a performance vocal dela. Eu não tinha nada disso, nem aparelho, nem banda. A casa tinha todos os equipamentos que a banda precisava, mas não tinha um computador onde eu pudesse colocar o meu pen drive com bases.
O produtor que me convidou para cantar e única pessoa que tinha um notebook, chegou às 23h30. Não havia mais tempo para eu passar som nenhum, teria que fazer na raça mesmo e arriscar o que desse.
Eu não estava tão nervosa assim. Eu fico nervosa quando já estou no palco e as reações variam.
É frustrante que ninguém se anime. Alguns olham, alguns conversam entre si, não interagem comigo.
No palco, eu fico ali pensando se sou forçada, ridícula, sem graça... Se estou incomodando. Mas esses pensamentos não me atrapalham, eu faço o que ensaiei e o que penso que deve ser feito.
Dessa vez chamei um menino ao palco, que conheci minutos antes do show. Ele sabia dançar Beyonce e estava desinibido. Foi uma ótima decisão! E dessas decisões rápidas, devo admitir que me orgulho. É meu mérito.
Havia pouca gente, bem pouca mesmo. Era uma sexta, uma casa de rock com uma festa pop, uns heteros super arrumadinhos e quase nenhum gay. Estava tudo meio indefinido e foi essa a sensação que tive no palco: indefinição.
No camarim, uma hora antes, estava sozinha. Era daqueles camarins de banda de rock dos anos 70, que a gente vê nos filmes. As paredes roxas, os sofás de couro rasgados, velhos. Um espelho minúsculo cheio de adesivos. Umas coisas quebradas e uma cruz invertida no teto.
Eu me olhava no pequeno espelho tentando entender como fui parar ali, o que eu estava buscando afinal, por que eu me metia nessas coisas? O que eu estou tentando fazer e quem eu penso que sou?
Inevitavelmente pensei na Madonna. No quanto ela era desrespeitada no início, como ela diz que inventou a roda. E eu ali, loura como nunca estive antes, olhos pretos bem marcados, uma blusa cropped e uma jaqueta jeans. Estaria repetindo a história? Será que eu tinha perdido a noção de vez?
Olhei pra parede e vi "1984". O ano do VMA. Madonna se esfregando no chão, ninguém entendendo o que ela estava fazendo. O ano em que ela começou a se tornar um mito. O despertar da Madonna.
Devia ter alguma explicação então. Devia ter algum motivo.
As aulas de canto estão me ajudando, porém eu acabei de começar. Minha boa secou novamente lá em cima, secou feio, como se eu estivesse sem água há meses. O microfone era ruim, estava bem detonado. O microfone bom estava guardado para a banda seguinte, aquela que usa aparelho para melhorar a voz. Eu não usava nada. Eu cantei à seco, na cara e coragem, sem ensaio, sem ninguém comigo no palco, sem banda pra me apoiar.
Não é fácil isso, gente. Eu juro que não é. Principalmente pra alguém tipicamente tímida como eu, e que havia passado nervoso horas antes aguardando uma resposta sobre a passagem de som.
Eu sabia que não iam me vaiar, eu já entendi que pra isso eu precisaria ser muito pior. Eu bato cabelo, rebolo e eles apoiam minha coragem ou simplesmente ignoram.
Eu não acho que o problema esteja no canto. Eu acho que mesmo que eu estivesse cantando muito bem, seria vista ainda com preconceito. Ainda não descobri exatamente porque. E não sei se quero descobrir.
Pensei muito, antes de entrar, e pensei mais ainda quando saí. Estou pensando ainda.
Sinceramente, eu pensava que o Brasil estava pronto para o pop. Mas talvez eu estivesse errada.
Estão aprendendo a aceitar o funk pop, mas ainda é uma vertente do funk. O pop, pop mesmo está morto por aqui, pelo preconceito.
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