domingo, 21 de junho de 2015

Ordinary

Estou me aproximando dos 23 anos como quem se aproxima dos 80, ou até mesmo 90.
Eu sinto como se não tivesse mais nenhum sonho, não por te-los realizados, mas por deixá-los morrer.
É estranho, pois sempre fui o tipo de pessoa que incentiva os sonhos dos outros e tento dizer a eles que tudo é possível, pensar positivo, pensar pra frente.
De repente fui tomada por essa onda de cinismo e derrota, como se não houvesse mais nada que realmente me impulsione, me dê vontade.
Cada dia tenho menos vaidade, vontade, inspiração, coragem. Acho que estou virando os outros.
To desistindo de ser cantora, ou qualquer outra coisa ligada a isso. E é bem esquisito essa nova perspectiva que me cobro com relação aos meus próprios ídolos. Agora eles não podem mais ser inspiração artística. Agora eu não posso mais me imaginar num palco lotado cantando alguma música da JLo. Estou me vetando, me escondendo, me censurando.
To me transformando em alguém ordinária.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Expectations

Eu queria continuar a conversa, mas agora não dava mais. Não estava tentando convencer ninguém a viver com suas expectativas, todo mundo sabe que elas são karma.
Eu tenho meus lamentos, meu ridículo jeito de me ver como vítima e então me sentir culpada por ser ridícula, e a culpa sucumbi a vitimização.
Eliminar as expectativas da minha vida é elminiar as expectativas de mim mesma, que já são baixíssimas. Se eu não esperar por milagres, pelo que esperaria? E se não esperar por nada, para que viver? Com a motivação da vida se não há expectativa? Eu não consigo! Eu não consigo achar resposta!
Acreditar que estou aqui pra nada. Já acredito, e todos os dias tento me convencer justamente do contrário, de que há sim um propósito.
É horrível viver, eu odeio e não acho que seja merecedora nem do ar que respiro, tamanha a dramaticidade com que encaro o simples ato de respirar.
Eu só queria dinheiro, só dinheiro. Pra eu esfregar na cara dos meus pais e faze-los parar de choramingar dívidas todo santo dia há 22 anos. Eu não aguento mais isso.
Eu queria ter dinheiro pra poder dizer à merda do país que eu consegui, mesmo sendo um lugar em que vivemos pra sermos miseráveis.
Eu queria ter dinheiro pra não ficar sonhando com amor, príncipes ou casamentos de luxo.
Eu só quero dinheiro! Dinheiro! Deitar no meu sofá e esperar a morte de jeito confortável.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Me leva para sempre Beatriz


Queria dormir e acordar uma atriz consagrada de novela das oito. No auge da minha carreira, aos quarenta e poucos anos. Linda, bem casada, feliz, com amigos poetas, músicos, gente inteligente e rica como eu. Porque não tem graça ser rica e viver cercada de gente fútil, eu prefiro os artistas.
Eu interpretaria uma mãe de família endividada, incerta do futuro dos filhos, injustiçada pela desigualdade do país. Todos os meus problemas seriam fictícios. Eu seria feliz, bonita, adorada, distante de redes sociais e tecnologias que explorassem minha imagem gratuitamente.
Eu queria acordar do lado de lá da tela, do lado bom, onde todos são imortais e a vida é mais real do que aqui.